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A Inveja na construção do ser

Outro dia me espantei com a exposição de algumas concepções filosóficas relacionadas à inveja. Tratava-se de uma serie de discussões em torno dos pecados capitais apresentado no Café Filosófico da TV Cultura. Depois de choque inicial, percebi que tal comportamento de negação, acerca da inveja não era sobremaneira um comportamento exclusivo.

A maioria das pessoas  acredita sinceramente  que inveja é um "pecado" apenas do outro.
Parte da fraqueza do outro e no outro se consuma como comportamento psicológico.

Um mero engodo...
Para começo de conversa ,  está não apenas redondamente, mas esfericamente  enganado quem utiliza de tal premissa.

A inveja faz parte do que somos. Está imersa na psique humana tal como os infindáveis sentimentos e comportamentos humanos relacionados  com nossa constante relação com o mundo, na forma principalmente, de respostas ao convívio social.

E um comportamento universal.

Ninguém está livre desse sentimento que ao entrar em contato com a alegria do outro nos causa repulsa. Quando percebemos o sorriso estampado no rosto do outro, vez por outra, e em muitos casos mais sérios,  nos pegamos alimentando determinadas sombras inerentes à nossa vontade de possuir, de roubar ou de surrupiar aquilo, que no outro nos causa tanto mal.

Não é racional, em um primeiro momento. Tampouco   administrável.

Se manifesta não apenas com relação à posse material ou física. Não apenas ao desejo de possuir o que pertence objetivamente ao outro. Se manifesta em toda a cadeia de sentimentos negativos, que acompanham inexoravelmente à falta de satisfação com que se tem, com o que lhe foi dado ou com aquilo que compõe os atributos morais, psicológicos e éticos do individuo.

Começa a partir   de um subjetividade e se expande para além da corporeidade.

Sua negação, faz parte  do pacote de reações que temos diante dos mais variados desafios.
Negamos a inveja como nossa, da mesma forma que só a enxergamos no outro. Não a admitimos socialmente, ou como comportamento social degenerado,  porque temos consciência de sua peculiaridade negativa. Por que a enxergamos como um sentimento vil e pecaminoso.
O afastamos de nossa personalidade e o rejeitamos como inerente à nossa  natureza particular.

Seja com um amigo de trabalho que comprou um camaro amarelo ou  uma amiga que desfila com o tubinho "versace", quase não conseguimos disfarçar, uma profunda e aparentemente mal explicada tristeza pela alegria do outro. Aquilo que nos outros é sinônimo da mais pura alegria, em nos chega como uma avalanche da mais pura e lasciva dor.

E quando mal conseguimos parabenizar a felicidade estampada no sorriso do outro,  com determinado e não determinado sorriso nosso,  amarelo quase sempre, procuramos, ansiosamente por mudar de assunto, ou disfarçar com um especie de indiferença velada.

A melhor forma de diminuir a própria dor e a própria insignificância, é diminuir a alegria do outro. Neste caso, como é o caso da maioria, nos tornamos invejosos ativos.
Determinados por força da mais profunda e pecaminosa inveja, não resistimos a destronar o rei do outro. A diminuir o sorriso do outro. A estraçalhar a plenitude, que mesmo sendo sincera no outro, não nos é aceitável, já que é a manifestação mais extravagante daquilo que não possuímos.

Retirar ou outro de seu patamar  de bem aventurança, de sorte ou de graça  se transforma em uma poderosa obstinação para o invejoso ativo. Trazé-lo ao chão, onde jaz a sua própria insignificância é então o objetivo maior da criatura acometida pela doença do querer aquilo que não se tem.

O invejo passivo por sua vez, é o mais bem treinado, semi-amigo que alguém pode ter.
É ele que, não obstante, reafirma a grandeza do outro, e a supervaloriza. Aqui não se trata de altruísmo e tampouco de virtude moral. Tal estratégia covarde se esconde por trás de um enfadonho  puxa-saco, que na ânsia de possuir a alegria do outro, consegue por meio do mais caprichoso disfarce roubar os respingos daquela alegria espalhada pelo brilho do outro. Este invejoso se contenta com os restos deste brilho. Se alimenta dos respingos. Se alimenta da alegria do outro, e invariavelmente se ressente malignamente pela condição humilhante e inferior em que se coloca.

Digo se coloca, não porque tal comportamento se relaciona com alguma racionalidade embutida.
Mas simplesmente porque movida por um instinto natural de posse o individuo passa a aceitar sua magnânima condição de autocomiseração.

Sendo portanto, universal e inata, como reagir então, a um pecado capital tão destrutivo?

Que a verdade seja dita...
Nada pode ser feito sem que a consciência sincera a respeito deste sentimento seja ativada.
A primeira é inequívoca condição para começar a lidar com a inveja é admitir que queremos não apenas objetos e sentimentos dos outros, mas admitir que queremos e necessitamos desesperadamente da alegria e satisfação contida nas mais diversas formas de posse.

Sem essa pré-condição  cai-se  no auto engano e na tosca concepção de um " eu não tenho inveja" ou "eu não preciso de nada de alguém" comportamentos que já conotam  a instabilidade do "Eu" do individuo que faz tais afirmações e  a partir delas constroem uma especie de blindagem para o problema de aparente auto estima.

Aqui, é portanto onde reside a impenetrável verdadeira mascara do ser...

a Auto-estima.

Valorizar suas próprias construções, sejam elas metafisicas ou não, objetivas ou não, da mesma forma que apesar de admiração, saber distinguir o que pertence ao outro e o que pertence a si mesmo, não comparativamente, talvez seja o caminho lógico para uma coerente e equilibrada reação à felicidade dos outros.

É sábio compreender a natureza humana tanto quanto suas sombras - e talvez na contramão de muitas concepções filosóficas em torno da perfeição - considerar,  que como criaturas,  estamos em um constante estado de Per - feição, ou de forma mais clara,  ainda estamos por fazer a nos mesmos, já somos entidades em  construção.
E como tal, não é tolo, acreditar que  apesar de possuir uma tal  pré-disposição para o que é perfeito, não somos e não estamos prontos.

O homem pronto está pronto, fechado em sua própria  ideia geral de perfeição.
Não admite a mudança. Não admite o erro comportamental,  da mesma forma que não admite o erro embutido no processo de construção do ser.






Comentários

  1. Numa recente busca de reconhecimento das minhas imperfeições, perceber e admitir que a inveja também é um dos sentimentos que me habitam foi um dos momentos mais sofridos. Ler seu texto foi como abrir uma caixa de bombons, rsss. Obrigada!

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