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Medo

Mais de uma vez tenho me perguntado a respeito do sofrimento humano e suas causas. Em face de tão complicada questão filosófica e antropológica não poderia esperar que uma resposta qualquer pudesse dar conta da questão, que de certa forma, não pode ser defendida exclusivamente por meio de uma sequência de silogismos primorosamente arquitetados.
A solução tangível para a elucidação ao menos parcial de tal questão, perpassa por uma avaliação mais criteriosa em torno da própria natureza humana. A natureza herdada e a natureza adquirida. A natureza daquilo que concebemos por meio de nossos sentidos e a natureza construída intuitivamente. Essa potencialidade humana, de ser e existir ante o imponderável é o que nos permite essa singularidade que ao mesmo tempo que nos torna soberanos na superfície do planeta, nos aflige, não obstante, ante os medos e as paranoias mais especificamente adquiridos, do que aquilo que trazemos em essência no espírito.
Infelizmente a tal felicidade plena só pode ser alcançada, por um lado por aqueles que se mantêm em absoluta ignorância a respeito das leis, regras e sobretudo a respeito da grande sabedoria divina, ou por outro lado por aqueles que já alcançaram a plenitude do conhecimento por meio de uma sólida permanência em estados de iluminação. O restante da humanidade pode apenas e simplesmente vislumbrar de relance alguns poucos instantes desse doce néctar da criação. 
No restante de nosso tempo cronológico estamos submetidos às regras do medo. Durante um longo período de nossa evolução, nosso medo febril da morte, da dor, do desconhecido, serviu-nos sim como uma espécie de estratégia de sobrevivência.  Sem o medo e sem a adrenalina descarregada no sangue nos momentos de confrontos e selvagens embates pela sobrevivência, teríamos sucumbido no caminho evolutivo que nos trouxe ao aparato cultural e tecnológico atuais e que nos permite de certa forma nos manter no topo da cadeia alimentar.
O problema no entanto, é que tal estado de segurança foram aos poucos acarretando em nossa sensibilidade um outro tipo de medo e um outro tipo de questão relacionada ao nosso instinto de sobrevivência. O medo não é mais aquele que se colocava em oposição à nossa sobrevivência física. Não mais aquele que se definia por conta e causa de nossa necessidade de enfrentar nossos inimigos naturais em nossa relação com o mundo exterior.
Se por um lado a evolução tecnologia e cientifica embalada pela era da informação nos trouxe um tipo especifico de segurança, nos concedeu por outro, o medo de nós mesmos e daquilo que alimentamos em nosso espirito, de negativo, de decadente e de destrutivo.
Somos nós, diferentemente de nossos ancestrais, seguros e decididos, que minamos nossa resistência às doenças e nos tornamos hipocondríacos por natureza, alimentando por sua vez uma gigantesca fabrica oficial de drogas e subterfúgios estilizados e empacotados na forma de solução para dores e sofrimentos diversos.
Somos nós que, nos desarmamos potencialmente da autoestima e da autoconfiança herdada, para nos tornarmos aos poucos frágeis e debilitados pelo continuo-tempo de nossas mais profundas paranoias.
Somos invadidos pela mídia televisiva, que ao distorcer o senso de realidade nos desvia de nossas mais nobres princípios de sobrevivência. A inteligência capaz de reagir pro-ativamente.
Driblados e desnorteados por um emaranhado de lixos empacotados, perdemos a direção a seguir e instintivamente deixamos de ser capazes de redirecionar nossas vidas, nossas perspectivas e nossas necessidades primárias.
Oprimidos por uma felicidade superficial e embebidos pelas vitrine da mídia, somos controlados e condicionados por ideias globais, necessidades globais, princípios globais em um constante processo de uniformização de pessoas e pensamentos em torno da permanência deste novo tipo de medo e de um novo tipo de comportamento diante deste medo.
Sem o medo primário necessário, aquele da luta pelo alimento, não teríamos sobrevivido, agora sem esse medo artificial implantado em nossa maneira de ser e de existir não seriamos considerados normais.  A normalidade se baseia nos padrões de stress, nos padrões de consumo e nos padrões de drogas injetadas no sangue de nossos corpos robotizados.
A normalidade se baseia em um sistema de saúde que se orienta pela doença e não pela saúde. Um sistema de segurança que se baseia na prisão punitiva e não educação libertadora.
Somos portanto marionetes assustadas com nossas imagens no espelho, com o que podemos produzir no mundo e o que podemos produzir em nós mesmos em detrimento de nossos instintos naturais e de nossa permanência pacifica no mundo.

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