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POLÍTICA CLÁSSICA E AS IDEIAS DE MAQUIAVEL.


A tradicional concepção de política  proposta por Aristóteles, prevê uma visão oriunda da natureza humana  e que através de um continuo aprimoramento leva o indivíduo a  desenvolver um comportamento virtuoso por meio de escolhas que  possibilitem  a realização do bem comum e individual no contexto social grego. Há uma estreita relação entre o comportamento ético e o comportamento político, que inevitavelmente está ligado à moral, pois o ato de perseguir este bem moral, este bem comum, o bem da polis leva o indivíduo  a exercer e deliberar sobre os assuntos da polis. E isso reflete uma igualdade entre aos cidadãos, que a partir da unidade constroem a diversidade, princípio fundamental da vida e da política grega segundo Aristóteles.
Nesta perspectiva, contrariando o pressuposto lógico da anterioridade do indivíduo, a polis é anterior a este, e este sem a polis não poderia existir. É a cidade que sustenta conceitualmente o individuo e é por meio dela que o individuo realiza e potencializa sua existência politica, democrática e filosófica em beneficio próprio e do estado. Portanto, a práxis clássica se baseia e se sustenta na relação de causa e efeito, que Aristóteles distingue como o movimento da essência  em direção a uma realização.
É o estado a finalidade da ação ética e política, sem, no entanto a polis assumir um papel de estrutura normativa de valores  e preceitos. Toda a relação de justiça se baseia em comportamentos práticos mediados pela experiência, o que torna a política uma esfera intrinsecamente ligada à vida social dentro da polis.
Não obstante, é exatamente neste ponto que a concepção Maquiavélica começa a se distanciar do universo clássico. De forma original, Maquiavel demonstra e situa a  esfera política como autônoma  da vida social. Sua politica não é estruturada a partir de ideias éticas ou religiosas que tenham como substrato a moral.
A vida política tem regras e movimentos que se diferem de quaisquer considerações internas, sejam elas privadas, morais ou filosóficas. Maquiavel situa  a política como uma esfera do poder por excelência. Essa relação de poder, elabora  portanto mais uma distinção significativa do mundo grego, o  conceito de Virtus. No pensamento de Maquiavel, a virtude aqui assume uma conotação diferente daquela que normalmente se encontra na tradição clássica. Em Aristóteles a virtude se entrelaça à ética e ao comportamento nitidamente  voltada para a busca do bem comum e da moral clássica. Já  em Maquiavel, a Virtus,  se refere mais a uma espécie de astúcia na arte de governar. Está ligada ao conceito de poder e de exercício de poder de forma calculada estrategicamente. O planejamento estratégico passa então a ser uma ferramenta para aqueles que exercem o poder sem a tutela de uma moral, como aquela  normalmente considerada na perspectiva clássica. É nesse ponto que Maquiavel separa a  moral do conjunto  de  requisitos  necessários para governar.  Sua Virtus descortina valores morais e apresenta condições  potencialmente antiessencialistas do mundo. Sem pensar na causa  primeira das coisas, defende uma hipervalorizarão dos efeitos em si. Sendo que não há necessidade de se conhecer as essências primeiras, mas apenas os efeitos. Estes sim, são factuais, são reais e fazem parte de uma politica prática, objetiva e totalmente calculada.
Portanto, a concepção politica de Maquiavel, apresenta uma perspectiva totalmente diferente da visão clássica, pois o fim condicionado de sua Virtus, não é apenas o bem comum ou a atualização da polis, como a virtude aristotélica, mas sim, antes de qualquer coisa é conquistar o poder, usar o poder e manter o poder. Insere princípios de justiça, egoísmo e prudência como aspectos fundamentais  da fortuna, que somente o homem e suas decisões calculadas estrategicamente  podem alterar.  Coloca em âmbitos distintos, o que no pensamento clássico está totalmente emaranhado. Para ele, a moral privativa é incompatível com a virtude clássica na forma de uma moral publica, da mesma forma, que moralidade  é totalmente distinta do que é legal ou convencionado.
O Príncipe concebido nesta visão, deve ser o governante ou líder capaz de decidir com prudência, perspicácia  e autoridade, sobre as coisas do estado e dos súditos sem se preocupar com a sombra de determinados  os valores morais ou essencialistas, mas antes de qualquer coisa deve respeitar a propriedade privada -fundamento que determina entre outras coisas,  o equilíbrio e a manutenção do poder por parte do Príncipe.

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