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Locke e Leibniz em uma perspectiva epstemológica



A base conceitual em que Locke assenta uma de suas teses a respeito do entendimento humano é sem soma de dúvida sua valorização e atribuição de importância ao processo de aquisição de materiais e objetos por meio da experiência, ou seja, um ponto de vista mais relacionado com o modo aristotélico de ver e entender o mundo. Dentro desta perspectiva, Locke admite a mente como uma folha de papel em branco a ser preenchida gradativamente pela experiências derivadas das sensação ou das impressões. É por meio desta relação com o meio ambiente que adquirimos nossas idéias nos mais diversos campos da percepção humana. Segundo o autor, o conhecimento se dá exatamente por meio do que nossos sentidos conseguem perceber de diferentes formas e de diferentes processos experimentais.
Por outro lado, baseando-se na tese inicial de John Locke, Leibniz abre uma perspectiva totalmente distinta  da ideia de aquisição  de objetos por meio da experiência.  Para este, a alma não é uma tábula rasa. Construindo uma sistemática critica à indução de Locke, Leibniz se distancia deste, ao provar por meio  de um raciocínio que ao contrário de desmontar o inatismo, como faz Locke, se associa a uma perspectiva mais platônica do mundo. Para este, as ideias que não possuem sua origem na sensação e na experiência, provem portanto da reflexão. É neste ponto que a racionalidade platônica aparece como sustentáculo de Leibniz, pois coloca a reflexão com o retorno de nossa atenção para algo que já está em nós,  já que, por outro lado os sentidos não foram capazes de nos trazer à consciência aquilo que já trazemos dentro de nós. E conclui sua critica à indução de Locke ao colocar  que somos inatos a nos mesmos, ou seja,  que existem uma infinidades de coisas inatas em nosso espirito.
Portanto, conforme o próprio Leibniz aponta, existe uma maciça diferença entre suas propostas que apesar de tudo surgem do mesmo ponto e da mesma questão relacionada ao entendimento humano. A principal destas diferenças e está na forma como os autores entendem o estado original da alma. Se é totalmente vazia conforme Locke, na perspectiva aristotélica ou se é  dotada de determinados princípios  e noções que despertam para a consciência mais em uma visão platônica. Depois, fica fácil perceber as diferentes formas pela qual estes autores entendem e concebem a verdade em sí, bem como a origem das verdades. Se é pela experiência indutiva segundo Locke ou se é por meio de uma reflexão acerca daquilo que os sentidos não nos dão, mas que já se encontra em nós na visão de Leibniz.

Assim, por meio da conclusiva de Leibniz a cerca da concordância de sua ideia  com a de Locke, notamos que o mesmo, ao argumentar em torno da tese de Locke, amplia sua perspectiva, e nos apresenta a mesma, com uma significativa contribuição, que apesar de se afastar da tese inicial, traz em perspectiva uma expansão tal, que coloca não apenas a experiência como origem do entendimento e dos processos que geram conhecimento, mas indo além disto, agrega ao pensamento Lockeano a perspectiva platônica de uma aquisição de objetos mais abstratos através de pura e genuína reflexão baseada naquilo que já trazemos e que muitas vezes ainda não nos foram percebidos, mas que o serão na medida em que ampliarmos nossa capacidade de reflexão.

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