Pular para o conteúdo principal

Grande Irmão



Não consigo deixar de pensar no quanto mídias televisivas no estilo Big Brother influenciam e atraem  milhares de pessoas em torno de uma fantasia. 
É como se estas pessoas não tivessem vida própria. Dia após dia projetam seus sonhos, desejos , necessidades  e até mesmo suas paixões  em um punhado de atores disfarçados de gente comum.  
Cidades inteiras se rendem a uma parafernália de pacotes psicológicos, atentamente projetados para instigar a curiosidade e cada vez mais ampliar, por uma lado a ingenuidade do espectador e por outro ainda mais grave, implantar de  forma sistematizada o princípio fundamental da alienação.

Obviamente existem um punhado de argumentações voltadas para a defesa do programa que fatura quase meio bilhão a cada edição.  Não é preciso citar qualquer deles especificamente, pois juntos, funcionam como instrumentos de justificativa para uma vida voltada para a completa alienação cultural e psíquica.
Tentei entrar nessa seqüência argumentativa, isolando de certa forma o aspecto plástico do programa.
A arte envolvida na representação ou ao menos o conjunto das artes musicais, teatrais e até o aspecto lúdico dessa ilusão empacotada e importada, como tantas outras do “grande país amigo”.
O grande irmão paga a seu herói temporário cerca de 0,3% do que arrecada e se apresenta como um dos maiores nichos de arrecadação no setor. Com um investimento irrisório, sem geração de emprego significativo, fica provado que o objetivo, como não poderia ser diferente, é mesmo  financeiro.
Tudo bem, que a emissora responsável pelo programa vise a capitalização e maximização de seus lucros, afinal é uma empresa como qualquer outra.
O que não se pode admitir é que as pessoas deixem suas vidas se envolverem com a obtenção de lucros por uma empresa que não possui compromisso nenhum com o desenvolvimento do país. 
Uma empresa que se tornou um conglomerado obscuro de mídias pouco interativas que a décadas  se alimentam exatamente da alienação, da pobreza cultural e da falta de perspectiva do brasileiro.
Não bastassem as novelas e o “programão” das tardes de domingo, o grande irmão, bem ao estilo Caim e Abel, cria padrões, determina modismos, instiga o uso de álcool e outras drogas e cada vez mais amplia sua exploração publicitária em torno do sexo e do corpo exposto de homens e mulheres robotizados  por uma ilusão.
Não se trata de moralismo ou de inferência  moral em torno do que rola e do que não rola dentro da casa.
Trata-se de uma preocupação sincera a respeito do que rola e do que não rola do lado de fora do circo.
Os problemas  brasileiros já são conhecidos  apesar de não serem amplamente  expostos por meio de um poderoso plano de marketing. 
A infinidade de questões urgentes, que afligem exatamente as pessoas que assistem ao grande irmão,  estão se tornando um câncer ambicioso e promete comprometer o futuro de um país que poderia ir muito além do que servir de palco para carrossel fantástico. 
Werneck, Buarque de Holanda, Darcy , Freire e muitos outros já anteciparam as possibilidades e os pecados de um país rico,  que não investe essa riqueza na  formação de seus cidadãos em indivíduos autônomos, criativos e potencialmente capazes de decidir sobre seus desejos, ambições e perspectivas.
São histórias contadas por brasileiros que não acreditam no grande irmão. 
São histórias que o grande irmão não conta, não divulga e não apóia. São histórias sobre o sofrimento, a dor e a desigualdade. Histórias que não passam na emissora amiga do grande país amigo, compromissada com os objetivos e as ambições daqueles que querem manter suas posições  de poder  e  de manutenção de pessoas e idéias  no lixo de pacotes como o do Big Brother.
Precisamos sim de pacotes e programas  que criem e  insiram um BBB (Boas Bibliotecas Brasileiras) no dia-a-dia dos milhares de brasileiros que não  conhecem seu país, não possuem idéias próprias e muito menos reconhecem ou acreditam nas possibilidade da mudança de paradigma  e reformulação das políticas públicas  necessárias para desinfecção cultural  que a alienação provocou  na vida e no cotidiano  de uma povo que sofre sob o fardo de uma  inexorável     forma de poder  baseada no pão e circo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

POLÍTICA CLÁSSICA E AS IDEIAS DE MAQUIAVEL.

A tradicional concepção de política  proposta por Aristóteles, prevê uma visão oriunda da natureza humana  e que através de um continuo aprimoramento leva o indivíduo a  desenvolver um comportamento virtuoso por meio de escolhas que  possibilitem  a realização do bem comum e individual no contexto social grego. Há uma estreita relação entre o comportamento ético e o comportamento político, que inevitavelmente está ligado à moral, pois o ato de perseguir este bem moral, este bem comum, o bem da polis leva o indivíduo  a exercer e deliberar sobre os assuntos da polis. E isso reflete uma igualdade entre aos cidadãos, que a partir da unidade constroem a diversidade, princípio fundamental da vida e da política grega segundo Aristóteles. Nesta perspectiva, contrariando o pressuposto lógico da anterioridade do indivíduo, a polis é anterior a este, e este sem a polis não poderia existir. É a cidade que sustenta conceitualmente o individuo e é por meio dela que o individuo realiza e potencializ…

Esoterismo é uma religião?

Bem, foi esta pergunta que uma grande amiga me fez outro dia, quando por ocasião de uma situação inusitada, ouvíamos na CBN uma entrevista com Teólogo e Professor de filosofia da UFRJ, Leonardo Boff. O repórter da CBN havia lhe perguntando a respeito da reação tardia da igreja católica sobre a onda de casos de pedofilia envolvendo padres católicos.

Durante o papo e falando sobre a problemática da sexualidade humana, na igreja e na família como um todo, acabei pegando um gancho nas belíssimas respostas dada por este grande mestre Leonardo, e lhe apresentei minha posição pessoal sobre o que significa Integração Holística, busca ao transcendente, equilíbrio humano, dualidade e outros tantos conceitos que fazem parte do dicionário de quem, sem dar nome ao bois tem uma busca pessoal baseada na verdadeira acepção da palavra religiosidade.

No vai-e-vem do papo ontológico que travamos, referi-me ao conceito de esoterismo como um caminho de integração e conexão (No sentido de Religare e não de…

O Discurso do Método Terceira parte

O estudo da obra de Descartes, mais precisamente entre a 3ª e 4ª parte do Discurso do Método, conforme proposto pelo professor, iniciou-se com a revisão dos conceitos elaborados pelo autor que culminaram com a sua mais famosa máxima: Penso, Logo Existo. A partir desta perspectiva o mesmo constrói sua linha de raciocínio em busca de uma contínua desconstrução de todo e qualquer obstáculo ao princípio de verdade. O que o autor define como Dúvida Metódica. Começa por meio da implantação de um filtro, onde através de análises profundas e metódicas, estabelece um critério básico como ferramenta de aprimoramento de suas idéias. Esse filtro se refere, portanto à definição da verdade e da falsidade nas coisas. Aquilo que possuir a verdade em sua totalidade, passa no filtro do que pode ser dito como verdade e de outra forma, aquilo, que possuir ou conter mesmo que pequenos traços de falsidade deve ser descartado do contexto das verdades dotadas de clareza e exatidão em sua essência.

Em busca …