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Para que Serve Filosofia?

Na época de Sócrates essa pergunta nem sequer seria feita.
Obviamente que isso não acontecia pelo simples fato de que a resposta era quase que a mesma que se daria caso a pergunta fosse por exemplo para que serve o alimento ou o oxigénio do ar.
Ou seja, filosofia para eles era tudo.

A trivialidade da busca filosófica naquele tempo,  não tinha  um significado utópico  como algo distante do cotidiano do povo grego.
Para eles a filosofia era mesmo como um alimento ou como o oxigénio que respiravam.
A escolas gregas de filosofia, a busca pela perfeição formal  e estética, o pensamento platônico e toda  miscelânia artística e cultural  prova o quanto tinham apreço ao fundamento e à busca da essência das coisas por meio de uma racionalidade apurada.

O desenvolvimento da virtude e dos valores eram próprios do pensamento filosófico e da mesma forma da vida social do individuo.
Características tais como força  de espírito, moral, virtude e honra eram  pontos intocáveis para os pensadores e seus alunos. O ensino da  busca por um caminho  de justiça e honradez significavam a base de toda essa riquíssima cultura.

Certamente, estamos acostumados a acreditar que muito do que somos está relacionado a está cultura.
Infelizmente não é bem assim...
Quando fazemos esta pergunta no contexto atual, percebemos que algo muito diferente poderá ser respondido.
Vejo isso claramente  quando comento  filosofia com amigos e familiares. Quase sempre as pessoas se retraem em uma gigantesca e assustadora interrogação.
A maioria  questiona a importância profissional de um curso filosófico. Alguns ponderam sobre a relevância financeira. A maioria porém ironiza sobre o significado prático do pensamento filosófico. Obviamente que o fazem sem nem  mesmo compreenderem os fundamentos filosóficos que norteiam o caminho do pensador.

Na verdade, e sem querer, acabo tendo que concordar com estes últimos.
Do ponto de vista prático, a filosofia no contexto atual não serve para nada.

Primeiro porque as pessoas não gostam de pensar.
Apresenderam a receber as informações e a processá-las  mais no sentido de resolver algum problema prático. De solucionar alguma questão que envolva  pouco desenvolvimento intelectual e mais resultados. Não estão preocupadas com os "Porquês" ou com os fundamentos.
O mundo da superficialidade e da transitoriedade não tem tempo para os questionamentos acerca do que as coisas são feitas ou para que serve isso ou aquilo.
É um mundo voltado para a valorização do funcionamento mecânco e sensorial.
Desenvolvemos uma superficialidade que não nos permite mais  questionar fundamentos.
Pensar dá trabalho. Para a grande maioria, a troca constante de foco é  demonstração de racionalidade coerente. Mas para o filósofo isto não passa de paranóia coletiva. Se  observamos bem o comportamento das pessoas em  uma conversa,  perceberemos que  não existe um  raciocínio linear coerente.
Os assuntos mudam na velocidade dos interesses e das necessidade urgentes do mundo prático.
Ninguém mais de detem para perguntar por exemplo, a sobre a origem das estrelas.
Muitos nem sequer notam que elas estão lá.
Este tipo de investigação perdeu o sentido.
Perdeu a graça e o significado.

Segundo, porque o mundo não nos permite mais o ócio criativo.
Domênico de Masi,  pensador italiano,  previu que no futuro as pessoas teriam tempo para pensar, ler, estudar e desenvolver habilidades intelectuais independente de seus afazeres práticos. Previu isso dentro do contexto em que  o trabalhador assalariado tivesse salário compatível com suas necessidades e tivesse uma carga horária reduzida. Não é preciso  argumentar sobre a inexorável situação do assalariado diante do poderoso conglomerado industrial e tecnológico de nossa sociedade da informação empacotada.

Não há salário compatível, não há tempo e não há interesse em criar tais condições.
O mundo globalizado carece mais de replicadores de informação do que de criadores de conteúdo de qualidade. Aos poucos vamos  agregando superficialidade aos nossos projetos e idéias.
Aos poucos vamos aprendendeo a tornar as coisas  cada vez mais práticas.

Ninguém se importa com os fundamentos básicos da educação ambiental, por que cada vez mais produtos surgem em torno de uma compensação que jamais vai acontecer. Cada vez mais soluções do mundo prático surge para salvar o mundo prático. Cada vez mais muletas e  e amarras são inseridas  indiscriminadamente  e goela abaixo de nossa sociedade tecnologicamente desenvolvida.

Muitos dirão que este processo de desenvolvimento humano é o que tinha que ser, e que caminhamos sim em direção ao esclarecimento e ao completo domínio dos objetos e da natureza ao nosso redor.

Sem dúvida, que partimos em direção  a um completo domínio da natureza,  mas estamos, não obstante totalmente distantes da luz. Estamos nos desviando rapidamente para as trevas de uma civilização que não sabe mais pensar a essência das coisas.

E é essa civilização decadente, como Nietzsche diz, que não precisa, segundo ela própria, de filosofia.

Não precisam de pensadores, precisam e produzem em suas universidades empacotados especialistas para tudo e qualquer coisa. Abstendo-se da investigação das entranhas esses robotizados produzem um gigantesco e prático lixo acadêmico ( e que Platão os perdoem) incapaz de produzir , ao menos uma  ténue linha de esclarecimento no sentido  não mitológico  da palavra.

Se vivemos uma realidade relativista, com as pessoas cada uma na sua, e com o mundo sofrendo as consequências  de um consumismo  encabeçado pela mídia, é porque perdemos o foco dasconcepções de uma super-estrutura conceitual em torno da realidade. Perdemos o referencial. Perdemos a noção do todo.

O " cada um na sua" produziu uma sociedade desenraizada dos valores  fundamentais e da virtude socrática. Produziu um conglomerado de interesses e necessidades, que provavelmente  nem existiriam frente a um pensar mais refinado a cerca das verdadeiras necessidades humanas.
Necessidades essas,  que não estariam voltadas predominantemente para a produção técnica, mas também    caso pensássemos sobre o prisma da civilização grega,   uma aproximação  racional do pensamento filosófico genuíno.

Sem filosofia, sem Deus e sem  o hábito de pensar caminhamos  em acelerado processo de decadência para o que chamo de normopatia  global institucionalizada.
Sem medo, sem culpa sem nada.

Comentários

  1. teu texto me jogou num espaço de indagações... os filmes de ficção-científica a que assistíamos nos anos 80 falavam de um futuro decadente, com máquinas inteligentes e escravizadas, ou rebeldes, ou simplesmente úteis e ordeiras. não seria a arte profetizando um tempo em que as massas humanas seriam movidas, mais do que serem motores de transformação?

    quanto à grécia antiga, nós a idealizamos demais, a meu ver. tá certo que sófocles, péricles, sócrates, platão, fídias entre outros são gênios cujas sombras ainda se estendem ao nosso próprio momento histórico. mas negligenciamos a instituição da escravidão, o que por si só invalida o argumento de que os gregos eram filósofos natos. que gregos? os livres, talvez, que eram minoria naquela sociedade. e, mesmo entre eles, se a filosofia fosse assim tão cara, o pioneiro não teria sido morto.

    vejo assim: numa sociedade escravocrata e aristocrata, os poucos que podem se dar ao luxo de não trabalhar fazem reuniões para se divertir, regadas a vinho, boa comida e sexo. normal. vê-se isso em qualquer contexto semelhante. festinhas de artistas ricos são assim também, tem esse mesmo élan aristocrático. sabe-se lá quantos banquetes ocorriam nas casas de famílias gregas tradicionais, quantos simpósios... mas poucos eram comparáveis àqueles em que se apresentavam nossos amados professores. quer dizer, a filosofia era marginal. é possível que sem aristocracia não seja possível filosofia, mas disso não se conclui que todo aristocrata vá se tornar filósofo.

    o primeiro que confrontou agudamente o sistema (observe-se que os governantes, os ricos, os livres, os artistas, enfim, la crème da sociedade grega, eram poucos e se conheciam, tinham o pensamento homogêneo, por mais que coisas como o areópago ou a "democracia" possam tentar nos dissuadir), pois então, o primeiro legítimo outsider foi silenciado. entre os bons, fale como os bons, pense como os bons, senão...

    realmente não consigo ver como nobres impolutos pessoas que discutiam sobre a justiça e a honra do ponto de vista abstrato, mas não se sentiam enojados com a coisificação de pessoas.

    portanto, desde a origem, a filosofia tem sido esquizóide...

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  2. porém, nos nossos tempos as coisas ficaram ainda piores, como você aponta em seu texto. informação e conhecimento são produzidos industrialmente, para consumo das massas... se queres saber sobre algo, haverá especialistas para te dizerem. e a "relevância", palavra tão apreciada nos meios internéticos, em muitos casos decorre da visibilidade pública de quem fala, não tanto da força do argumento.

    mas, quer saber? foda-se! filosofia nunca foi para alimentar rebanhos.
    pois em qualquer época a filosofia é incômoda!
    só pode ser filosofia se for incômoda...
    e também exige uma certa aristocracia, mesmo que seja do pensamento. diferençar-se da correnteza.

    lançar sementes de pensamento que germinem sabe-se lá onde e quando. ou como...

    essa filosofia terapêutica que andou em voga é uma diluição do espírito filosófico. reedição de textos antigos focados em situações existenciais, com o fito de consertar a engrenagem deficiente da grande máquina, para que continue funcionando... filosofia não tem utilidade, não pode ter utilidade. não se cria reflexões para ajudar! mas porque não se pode evitar!é bem desse nosso tempo a noção de que tudo tenha que possuir uma aplicabilidade prática... nesse sentido a arte passa pelo mesmo patrulhamento.

    o imaginário popular vai se acostumando a ver arte presente em "tudo", entenda-se, nos objetos industrializados. arte é o design - palavra que contém a etimologia de armadilha, embuste, estratégia. arte é a tela do ipad, é a barra de tarefas do win7, é a camisa slimfit, são os óculos rayban, é o microchip quântico. o perigoso nisso tudo é que são corporações as autoras e detentoras dos direitos sobre tais preciosidades. como contraponto: o artista que esculpe faces em muros, escavando na massa, no reboco, no tijolo. ou o que imprime seus desenhos e os espalha por pára-brisas, caixas de correio, gavetas. ou o que grafita imagens perturbadoras e assina com pseudônimo.

    arte e filosofia, quando sonham com ser úteis, terminam a serviço da besta-sistema-poder.

    abç

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