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Malha Epistemológica

Cada vez que me aventuro na linearidade de um raciocínio filosófico tenho a nítida impressão de que lacunas vão aos poucos  sendo preenchidas no que estou me acostumando a chamar de Malha Epistemológica.
Por outro lado a compreensão de alguns pontos, vão da mesma forma gerando um infinidade de outras tantas lacunas de natureza cada vez mais diversificada. É um exercício por demais precioso e laborioso esse de se perder a cada vez que se encontra.
Também é um exercício voltado para alguns poucos, que dotados de coragem ou de vontades intelectuais superiores ao ego, se colocam nesta muitas vezes desvantajosa e interessante posição.
Sem dúvida alguma, que esta é a posição do filósofo, mais do que a de outros  tipos de pensadores, sejam eles idealistas, materialistas, céticos ou relativistas.
Portanto, não raro, a forma incorreta de se debruçar por sobre a malha a que me refiro, vez por outra tem levado as melhores intenções ao fracasso. Não apenas porque o exercício já seja por si uma atividade para poucos, mas por que via de regra, a intenção começa mais pela perspectiva do “fim” do que pelos “meios” , do que pelas ferramentas ou pelos métodos.
Como um fim, o conhecimento prático, gera controvérsia entre a análise conceitual filosófica responsável pela conexão de retalhos na superestrutura do saber propriamente dito.
Esta análise filosófica, que obriga a uma desvinculação da superficialidade e mergulha na essência primeira das coisas, opera com uma racionalidade voltada para um embate direto com o desconhecido, e diferencia-se das regras práticas e das elaborações intelectuais que visão tão somente  à resolução de problemas resultantes da interação humana com  a industrialização e a produção tecnológica.
É nesse ponto que surgem as lacunas deixadas pela falta  de atitude filosófica.
É exatamente aí, onde o pensamento técnico - cientifico tão avançado se sobrepõe.
Aos poucos, e de forma irreversível, as linhas gerais de um método de investigação de “essências” vai se perdendo em um emaranhado de existências pré-concebidas e opiniões, que por não ter compromisso com a Verdade colabora mais  com o obscurecimento  do que com o esclarecimento no sentido frankfurtiano.
Não se pode afirmar sobremaneira, ainda que isso pareça óbvio, que este redirecionamento  da racionalidade seja um defeito da conjuntura social no contexto das múltiplas revoluções no campo do conhecimento humano.
Mas a sem dúvida  que se repensar o relativismo como base do pensamento, pois a falta de referenciais  balizados por uma filosofia ética tem nos mostrado um significativa ampliação tanto de lacunas quanto de falhas na malha epistemológica.  
Um risco iminente do rompimento da estrutura que ainda suporta as tensões  de uma civilização que por natureza caminha para a decadência é algo que assusta da mesma forma que instiga.
Esta diferenciação de conhecimento técnico de conhecimento filosófico é sem sombra de dúvida o divisor de águas entre a filosofia clássica e o “modus operandi” da razão moderna.
Elucubrar ou fazer inferências em torno da validade de uma ou da ineficácia do outro,  não nos trás perspectivas do ponto de vista prático, mas no campo da definição e do colapso constante entre essência e existência merece investigação e abordagem por demais criteriosas, já que é da compreensão desta conexão que o “esclarecimento” das variáveis que compõe a essência das coisas e os aspectos da existência se tornam uma perspectiva comum no plano da investigação filosófica e da busca por um  caminho que reconduza a razão técnica a um novo patamar.  
Se não o for, no sentido de criar um  pano de fundo  filosófico ao menos, que o seja para colocar  a nossa razão moderna em uma posição de preservação da malha até então caprichosamente tecida pelo brilhantismo do pensamento filosófico genuíno.

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