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Filosofia ou literatura?

Certa vez ouvi de um renomado pensador, que mais interessante  que ser um  brilhante comentador de filosofias alheias, seria viver no anonimato de uma filosofia original.
Isso não me pareceu estranho ao espírito. Até por que,  há muito tenho tentado analisar conceitualmente as relações  intrínsecas  a esta diferença de tratamento ao conhecimento.
No geral, percebi que a grande maioria prefere o conforto e a estabilidade   de trabalhar extensivamente  no entendimento e na dissecação da obra ou do pensamento de outrem. Não há nada de errado nessa abordagem, desde que a partir dessa investigação  seja produzido uma originalidade. E desde que com essa nova forma de  enxergar o que foi proposto seja  da mesma forma possível contribuir mais e ir além.
Atualmente, os caminhos que se apresentam a mim no sentido de uma formação acadêmica conservadora e restrita me fizerem refletir bastante no significado que  a busca de uma filosofia  própria, no contexto de muitas outras filosofias,  já consolidadas e colocadas como objeto de estudo, pode contrariamente ao que esperava inicialmente,  me colocar em uma  complicada situação,  de um lado por conta da necessidade de aprender mais do que produzir, e de outro lado de não deixar, durante este processo de aprendizagem, que minhas  idéias primeiras sejam suplantadas  pelo que já está consolidado pela academia ou pela genialidade indiscutível de outros.

Obviamente que há de surgir dia apos dia um caminho alternativo que  me permita construir  uma base filosófica  consistente e poder liberar certas  angustias reprimidas pela falta argumentação.

O que me cerca, portanto é a necessidade de pensar sozinho e ao mesmo tempo ter que usar determinados métodos, que já são conhecidos e que já foram formalizados.
Reconheço a ansiedade de organizar essa orgulhosa vontade de escrever sobre tudo e sobre qualquer coisa. Mas desde já percebo a urgência de fazê-lo com mais base conceitual do que emotividade intelectualizada. Elaborar mais do que simplesmente jogar no papel me parece o  sentido de uma  filosofia própria.
Porém não consigo conceber essa tempestade sendo direcionada por um  túnel de concreto armado. Sendo  emoldurada e autenticada como parte integrante ou como parte controversa de uma arcabouço fechado.
Sinceramente cheguei  a me colocar mais  dentro da  literatura do que no universo da filosofia  ou da busca de uma. Claro que ninguém mais do que eu  para reconhecer estas pretensões sejam elas antagônicas, complementares ou totalmente  alheias uma à outra.
A verdade é que não posso deixar de  refletir sobre fundamentos. Não importam quais sejam. Eles sempre me fazem mergulhar  para além da superficialidade. É pensando em cada vã objeto  ou cada pequeno fato do cotidiano que consigo ficar  mais em silêncio do que tagarelando subterfúgios ou explicações diversas.
É claro que esse   viés investigador não cabe no  perfil exclusivo da literatura. Pode sem duvida  ser um aliado do gênio literário. Mas não é literatura. Da mesma forma que literatura não pode ser confundida  com filosofia, e essa não pode sequer  ser enquadrada na primeira.
Por outro lado o filosofo que possui a dádiva das letras pode sem dúvida construir um texto filosófico que muito enriquecerá a produção literária, sem ser literatura em seu sentido restrito.

Quero  a filosofia não apenas como forma de produzir textos filosóficos, mas como forma de construir um modus operandi em torno da busca pelo conhecimento em si. Em torno da formulação sincera de perguntas certas para os objetos certos.

Comentários

  1. “Os filósofos têm se limitado a interpretar o mundo de maneiras diferentes. A questão, porém, é transformar o mundo.” Marx

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