Pular para o conteúdo principal

O Discurso do Método Terceira parte

O estudo da obra de Descartes, mais precisamente entre a 3ª e 4ª parte do Discurso do Método, conforme proposto pelo professor, iniciou-se com a revisão dos conceitos elaborados pelo autor que culminaram com a sua mais famosa máxima: Penso, Logo Existo. A partir desta perspectiva o mesmo constrói sua linha de raciocínio em busca de uma contínua desconstrução de todo e qualquer obstáculo ao princípio de verdade. O que o autor define como Dúvida Metódica. Começa por meio da implantação de um filtro, onde através de análises profundas e metódicas, estabelece um critério básico como ferramenta de aprimoramento de suas idéias. Esse filtro se refere, portanto à definição da verdade e da falsidade nas coisas. Aquilo que possuir a verdade em sua totalidade, passa no filtro do que pode ser dito como verdade e de outra forma, aquilo, que possuir ou conter mesmo que pequenos traços de falsidade deve ser descartado do contexto das verdades dotadas de clareza e exatidão em sua essência.

Em busca dos caminhos lógicos trilhados pelo autor, o professor, instiga os alunos a aproximarem suas idéias da lógica cartesiana e tentar contrapô-la por meio de argumentos filosóficos consistentes. A discussão levou a turma a um intrigante debate metafísico de elaboração de hipóteses e opiniões de um lado como forma de se compreender a proposta cartesiana e do outro como ferramenta de desenvolvimento de habilidades em torno da prática filosófica.
A base dessa discussão metafísica ficou, portanto, voltada para o significado de essência e de existência como aspectos e características das coisas. Aloca o pensamento como principio fundamental para a existência e descreve, a invalidade dos sentidos, das ciências demonstrativas e finalmente dos sonhos como estruturas para a concepção de existência. Neste sentido, toda a realidade visível, experiências e sonhos são submetidos à dúvida metódica e por sua vez são considerados desnecessários para a efetividade da existência. A única e inegável estrutura capaz de garantir o fundamento existencial e que passa pelo filtro da dúvida métodica, é portanto, o pensamento. Mas Descartes afirma, que não se trata do pensamento especifico dos aspectos materiais dos objetos, pois se assim o fosse, estaria da mesma forma descartado pela dúvida. Segundo ele se trata do penamento que pensa o pensamento em  sua essência primeira, ou seja do pensamento que não é sobre algo ou alguma coisa, mas sim do pensamento em sí. Do ato de estar pensando.
Essa é a condição indubitável para se existir. Todo o resto é descartável e desnecessário.

Essa linha de raciocínio possibilitou a apresentação, por parte do professor, dos conceitos de um pensador, que invertendo os valores de Descartes, elaborou as bases do existencialismo. A idéias de Sartre, inverte a ordem hierárquica entre a essência-existência do sistema cartesiano, para existência-essência do existencialismo, argumentando em favor da prioridade da segunda sobre a primeira e acrescentado maior liberdade e responsabilidade ao homem frente a governabilidade que essa idéia da existência sobre essência permite ao homem, que passa a ser totalmente livre diante  de uma hipotética realidade sem Deus.

Assim, percebe-se que tendo o existencialismo expurgado Deus, em Descartes este mesmo Deus é a premissa fundamental. É o substrato que o autor persegue e de certa forma encontra, pois em sua análise defende a existência de Deus pelo simples fato de o mesmo, em essência ser o princípio do pensamento humano.

Deriva suas idéias por meio do raciocínio de que o perfeito não pode ser criado a partir do imperfeito, ou que em qualquer imperfeito jamais se tira perfeição, logo, colocando-se como um ser imperfeito frente a perfeição divina, Descartes demonstra que não fomos criados por algo imperfeito como nós, mas por algo que transpondo os limites da imperfeição, existe além das possibilidades humanas.

De onde surgiria o pensamento fundamental que possuímos sobre Deus?
Este algo, que sendo perfeito não veio da mesma forma do imperfeito que somos nós?
De onde surgiria?
Para resolver este problema Descartes afirma que não somos nós os responsáveis pelo pensamento que temos de Deus, mas de forma inversa, ele como absoluto, é o verdadeiro responsável pelos nossos pensamentos, sendo em essência a causa maior de nosso pensamento e da mesma forma de nossa existência.
Isto explica  o fato de sermos imperfeitos e pensarmos no perfeito, já que a origem deste pensamento vem do prório Deus.
Resolvido o dilema da perfeição, resta-nos a complexa elucidação das origens do pensamento e da existencia. O que vem primeiro o pensamento? Ou a existência das coisas?

A resposta que pelo menos Descartes, apresenta  para os céticos, é para que eles mesmos, ao analisarem conceitualmente  tais opiniões, quer queiram ou não, percebam que ao pensarem, existirão, como que por efeito e conseqüência direta, da essência de Deus que é a causa inexorável de tudo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

POLÍTICA CLÁSSICA E AS IDEIAS DE MAQUIAVEL.

A tradicional concepção de política  proposta por Aristóteles, prevê uma visão oriunda da natureza humana  e que através de um continuo aprimoramento leva o indivíduo a  desenvolver um comportamento virtuoso por meio de escolhas que  possibilitem  a realização do bem comum e individual no contexto social grego. Há uma estreita relação entre o comportamento ético e o comportamento político, que inevitavelmente está ligado à moral, pois o ato de perseguir este bem moral, este bem comum, o bem da polis leva o indivíduo  a exercer e deliberar sobre os assuntos da polis. E isso reflete uma igualdade entre aos cidadãos, que a partir da unidade constroem a diversidade, princípio fundamental da vida e da política grega segundo Aristóteles. Nesta perspectiva, contrariando o pressuposto lógico da anterioridade do indivíduo, a polis é anterior a este, e este sem a polis não poderia existir. É a cidade que sustenta conceitualmente o individuo e é por meio dela que o individuo realiza e potencializ…

Esoterismo é uma religião?

Bem, foi esta pergunta que uma grande amiga me fez outro dia, quando por ocasião de uma situação inusitada, ouvíamos na CBN uma entrevista com Teólogo e Professor de filosofia da UFRJ, Leonardo Boff. O repórter da CBN havia lhe perguntando a respeito da reação tardia da igreja católica sobre a onda de casos de pedofilia envolvendo padres católicos.

Durante o papo e falando sobre a problemática da sexualidade humana, na igreja e na família como um todo, acabei pegando um gancho nas belíssimas respostas dada por este grande mestre Leonardo, e lhe apresentei minha posição pessoal sobre o que significa Integração Holística, busca ao transcendente, equilíbrio humano, dualidade e outros tantos conceitos que fazem parte do dicionário de quem, sem dar nome ao bois tem uma busca pessoal baseada na verdadeira acepção da palavra religiosidade.

No vai-e-vem do papo ontológico que travamos, referi-me ao conceito de esoterismo como um caminho de integração e conexão (No sentido de Religare e não de…