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A Morte de Deus

Tenho pensando em quantas mil coisas um ser humano é capaz de aprender em todo o percurso de sua vida. Quantos caminhos, encontros e desencontros perigosos e maliciosos que vão sendo paulatinamente assimilados no decorrer da busca pelo conhecimento, nós somos capazes trilhar. A inferência que faço a respeito dessa aventura é no sentido de mostrar um pensar filosófico que nos coloque à beira de um precipício, em busca de nossa sombra, a sombra de nós mesmos por trás de um sol em que possamos nos consumir. Talvez por isso sejamos tão diferentes uns dos outros nas formas de pensar e de interagir com o mundo natural e suas diversidades, bem como com o mundo supranatural. Obviamente, que em se tratando de mundo físico tridimensional é predominante a investigação na maioria das vezes de forma leviana e superficial pelos que se entregam à maré de pobreza espiritual e fraqueza de virtude. A estes o conhecimento jamais serão revelados. E não importa o esforço que façam no sentido de fingir, que não precisam de nobreza de espírito e virtude moral. Nestes que fingem, piores que os outros, não se pode confiar sobremaneira pois não são capazes de buscar o fim de seu prazeroso sono racional além da carne, do ócio e da preguiça. Simplesmente está morto intelectualmente. Primeiro, porque a perfeição ou pelo menos a aproximação desta, é condição primária para a liberdade de pensamento e construção de uma sólida ponte filosófica a partir da doxa-epsteme. Isto, por si só seria um salto quântico filosófico para o reino dos altos pensamentos. Segundo, que se este mesmo homem não ansiar por uma construção lógica que expanda suas opiniões, qualquer que seja, jamais poderá fugir das amarras tridimensionais e tampouco ambicionar o conhecimento final das coisas ou o conhecimento intríseco a cada objeto de suas investigações. E seja em um caso ou no outro, não se pode tutelar a morte do pensar, a descrença e o desânimo de espírito principalmente naqueles que se dizem dignos, honrados e positivos. Deixar o pensar morrer, seria sem soma de dúvida, deixar-se morrer.
Dignidade, positividade e honra são principios de uma virtude que direciona o homem para a vida superior, pois a virtude, de certa forma molda o verdadeiro filósofo. Para este a hipocrisia reina nos lagos subterrâneos de mentes que aceitam o universo da auto preservação em detrimento de uma briga intelectual acerca das coisas que habitam o status além da normopatia alienante.
Essa condição particular da virtude, infelizmente, para quem gosta de pensar, não pode ser configurada sem um robusto esforço. E este esforço em busca de uma sobrevida ou de uma forma peculiar de renascimento criativo não faz parte das características de homens meramente práticos. Um homem que se abstém de executar determinados saltos mentais para além do comum, é tão pequeno e covarde quanto aquele que caminha perambulando sem rumo por entre os campos lamosos de uma consciência adormecida. Não me atrevo a dizer que sou o exemplo maior de certo refino moral e intelectual e que sou ungido por imaculada percepção espiritual. Em absoluto. Não obstante, extravasando minhas vontades um pouco mais, do que a maioria com quem convivo, tenho experimentado o significado real da diferença que existe entre uma escolha essa escolha e a outra e da mesma forma a diferença do lapso de tempo entre fazer uma escolha coerente com minha essência primeira e fazer uma escolha regido pela necessidade de meu corpo por satisfazer o prazer, a luxuria e o desejo, que são sem dúvida ferramentas capitais da decadência.
Não se trata de moralismo, até porque não tenho medo de escarnecer a fraqueza e a hipocrisia. Não que eu seja forte comum todo, e que medos terríveis, de naturezas diversas, não habitem minha alma, à espreita e à espera de meus vacilos. Nesse sentido sou o “humano demasiado humano” de Nietzsche.
E compreendo fatalmente que se paga um preço exorbitante no contexto de hoje se relacionar com os pensamentos superiores a que me refiro. É um preço caro esse que se paga pelo conluio com metafísicas velhas e novas. No entanto, para quem gosta de pensar é quase uma espécie de sabotagem planejada deixar de acreditar na essência primeira dos valores fundamentais da vida. Não há nada lá fora, no mundo, que justifique esse suicídio Intelectual.
Talvez por isso não seja nada fácil para muitos entender o significado de suas decisões. E é com referência a elas que tenho tanto pensado e tanto aumentado minha atenção. Não se trata de ter uma visão profética das incógnitas, mas de se ter um inusitado momento de parada intelectual, para observar não as escolhas em si, mas o que elas podem significar em diferentes prerrogativas. O que uma escolha pode significar quando nos colocamos indiferentes a ela ou em uma em uma posição filosófica, analisando pontos distintos de interesse e satisfação, passando a enxergá-la simplesmente como uma lacuna no espaço e no tempo das possibilidades reais do homem pensante. A grande resposta para a escolha correta não é qual deve ser tomada em sí, mas qual significa uma derrubada incondicional das florestas de convicções que nos cercam o sol. O que se faz normalmente é conduzir-se por caminhos e escolhas em que a facilidade seja predominante. Isso até pode parecer um caminho inteligente para os ditos irracionais. Não pode ser estimulada no universo dos homens de estirpe. Infelizmente, porém, para os que trilham caminhos floridos, desencadeiam-se processos alienadores que minimizam a clareza de pensamentos e mergulham a mente em tal confusão mental até as bordas da alma, e isso os torna incapazes de gerenciar suas vidas com base em uma amplitude lógica das variantes existentes em certezas e convicções. Não percebem que a visão clara destas diferentes realidades são as responsáveis pelos alicerceis de uma moral instituída por um conjunto de regras coletivamente aceitas e estrategicamente bem administradas pelos nossos desejos e pelo desejos que outros, estranhos ao nosso patrimônio interno, nos dizem ser importantes e significativamente indispensáveis para nossa sobrevivência.
Isto por que vivemos em uma controvérsia circense ao confundirmos nossas vontades mais sinceras com as vontades deste mundo. Talvez tenhamos classificado erroneamente altruísmo como oposto ao egoísmo, ficando mais uma vez, sobre a sombra e a escuridão de falsas verdades, lapidando o túmulo de nossa ascensão intelecto-epiritual. Não há altruísmos e tampouco egoísmo. O que há são escolhas momentâneas baseadas em um interesse momentâneo. Somos sim, como bem sabemos no intimo criaturas mais preocupadas com a materialidade do agora do que com a permanência do espírito. E em uma perspectiva metafísica somos infantis e influenciáveis, acreditando sempre que a mutabilidade de nossa realidade é o principio básico e fundamental desta mesma realidade.
Aprendemos a acreditar por via de pressupostos psicológicos que nada é mais importante do que a satisfação plena de nossas aparentes necessidades. O resultado disso, longe de ser casualidade, é que estamos acostumados a resolver nossas questões mais voltados para uma escolha em que soframos menos, choremos menos e mais do que nunca tenhamos o menor número de perdas possíveis. É claramente compreensível que na maioria das mentes humanas reina, uma selvagem e impostora necessidade fisiológica que quase sempre dita as regras. Mas muitos dos grandes homens de nossa época viraram as costas para esta facilidade. Deram as costas para o caminho em que tudo seria mais fácil, em busca de um espinhoso e lamacento caminho de redenção, crescimento e verdade.
Viver, sobreviver, não obstante também é um caminho que todos queremos e desejamos percorrer. Mas a grande questão se trata efetivamente do como fazemos estes caminhos e estas escolhas. Com que base fundamental somos capazes de criar a soluções corretas para bifurcações que não irão afetar apenas nós mesmos. Aí é que mora o perigo das escolhas certinhas que vez por outra encontramos baseados em nossas convicções. A verdade é que quase sempre as fazemos pensando exclusivamente no que nos trarão de beneficio na guerra pela sobrevivência. Não há coerência em achar que pensar, também no outro seja a forma mais correta de estabelecer padrões de assertividade em nossas escolhas. Mas devemos passar, quer queiramos ou não, nossas convicções pelo filtro refinado do bem maior pelo crescimento total de nossa coletividade. Não penso que julgamentos acerca de bem e mal tenham qualquer significado para a mente que alcança os vôos que venho descrevendo. Não. O julgamento não passa de uma posição definida por um ponto referenciado e balizado por escolhas. E escolhas por sua vez, se não forem aquelas em que se cria o lapso revisional já descrito, com uma extenuada observação e análise conceitual, não terão qualquer profundidade de consciência e tampouco qualquer valor de juízo lógico.
Muito tem-se falando em justiça, moral e ética em nosso cotidiano conturbado. Mas estes, à luz de uma razão consistente não passam de mais subterfúgios e lamúrias intelectualizadas por pensamentos já balizados. A justiça vem do pressuposto de que algo inerente a natureza humana foi perturbada. Algum dano foi causado e alguma forma de pensamento determinou caminhos específicos para nortear uma solução próxima àquela em que se pode enxergar a “Phatos” . A moral se baseia, mais uma vez nas convicções construídas no pensamento momentâneo de uma época, estabelecendo-se intelectualmente no mundo das idéias. A partir deste ponto o ser passa a se subordinar ao conceito de uma realidade externa a ele mesma. E é neste contexto que começamos a perceber a discrepância existencial que nos levaram a todos ao estado de decadente construção filosófica a que estamos inseridos. A dissolução de uma metafísica original. Não se pode construir nada que não seja baseado e norteado inicialmente pelo instinto interno, natural e infalível. Já a ética é uma mistura quase que glamourosa de nossa vontade sincera de fazer as coisas certas mais a nossa capacidade de fazê-las, em detrimento de nossa ainda superior e predominante necessidade não tão sincera assim, de fazer exatamente aquilo que outras convicções nos apresentam serem eticamente corretas. O espírito humano após um exaustivo embate, e libertado das correntes do aparente é que deve balizar nossas escolhas no campo de uma ética diferenciada e potencializada pela correta forma de enxergar além da superficialidade e das certezas emolduradas belamente por mentes desprovidas assertividade.
Assim, Na ânsia de buscar não apenas respostas sensatas para a nossa mediocridade intelecto-espiritual ficamos de certa forma incapazes de gerenciar nossas dores, e mesmo com a permanência de um sincero desejo de aprender a olhar furtivamente e celeremente para as oportunidades deixadas pela observação que nos apresentam, é que proponho um mergulho desinteressado, porém disciplinado no universo de nossas certezas e convicções, e dentre elas, talvez a mais complexa, está, sem sombra de parentesco ou paralelo, tanto em grandeza quanto em importância psicológica, o conceito que fazemos de “Deus” e sua superestrutura “moralística” que nada tem comum com o sagrado.
A prova disto, é que mais de uma vez tenho ouvido falar de criaturas que movidas pelo amor de Deus, foram capazes de matar, morrer, produzir dor, escarnecer e de muitas outras formas estabelecer padrões de comportamentos voltados para a satisfação coletiva e individual de grupos instituídos por premissas baseadas em inverdades e incoerências racionalmente erguidas no seio da coletividade. Para estes, a verdadeira essência de ligação com o sagrado foi perdida para a valorização do fanatismo e do fundamentalismo como ferramentas de controle coletivo de idéias, pensamentos e atitudes. Através destas estruturas em torno deus, um mundo de falsas definições a cerca da natureza primordial do próprio homem foi sendo construída e edificada.
Esse caminho tirou do homem o potencial de emancipação das esferas materiais e superficiais, que naturalmente se englobaram à psique humana e fazendo do homem um “cárcere de si mesmo”.
Ao longo da jornada evolutiva fomos aos poucos nos emoldurando às necessidades do mundo externo à nossa natural existência, e fomos na mesma medida perdendo parte de nossas potencialidades e características fundamentais para as investidas do mundo externo.
Cada vez que cedíamos aos pacotes predeterminados de comportamentos e decisões, íamos definitivamente deixando nossas ferramentas de relacionamento com a verdadeira vida para trás. Com fardos leves e com bagagens minimizadas menosprezamos a disciplina tão valorizada pelos pensadores de outrora. A falta de disciplina e a maior velocidade de um mundo vivido por pessoas sem uma bagagem consistente, fizeram da nossa sensibilidade de relacionamento apenas um emaranhado de sentimentos, julgamentos e psicoses sem nexo, sentido ou causa aparente.
Na busca por uma unidade subjetiva e de um apoio sólido, baseado em nossas novas convicções de mundo, foi que desenvolvemos, desde então a superestrutura conhecida como Deus. Tão complexo, desconexo e humanizado quanto nossas próprias percepções de mundo. Tão incrivelmente débil e não articulado com nossas essências primeiras, que aos poucos passamos a deixar de procurá-las , confrontá-las e melhorar-las. Sem motivo para existir, como afinal poderia ter existido, a natureza humana forjou sua “bengala” em falsas verdades e em um subjetivo e inexplicável Deus. Um deus que pune, castiga, faz sofrer e chorar. Pode dar a vida e a morte. Pode ser e não ser. Por causa deste deus, abrimos mão de nossa própria divindade e inexoravelmente nos ajoelhamos frente o fluxo da evolução, silenciados pelo peso de um pecado não explicado e condenados não ao fogo do inferno apenas, mas às sombras eternas de uma ignorância plantada em nome de deus.
Minha intenção não permeia a desconstrução do sagrado que faz parte e é inerente à natureza humana, mas antes disso, demonstrar a instalação do profano. O Deus que por ora adoramos tão fervorosamente acabou se tornando a bengala da humanidade e por conta dessa relação desigual, acabamos por deixar de seguir um caminho natural de crescimento e virtude.
A filosofia perene e a metafísica antiga, que de certa forma compunham o conceito de um Deus ou de Deuses mais coerentes com a busca do conhecimento através da virtude, da ética e do viver em função da melhora de si mesmo e da melhora da coletividade humana, cederam lugar a um relativismo alienante. A ausência destas formas de viver baseadas no autoconhecimento transformaram o pensamento humano em um emaranhado de verdades particulares direcionadas única e exclusivamente aos interesses e necessidades também particulares de nosso tempo. Um tempo, que matou o Deus interno e superior de cada um e ressuscitou o deus coletivo, autoritário e relativo de uma humanidade que existe, mas sinceramente não sei se ainda Pensa.

Comentários

  1. Valeu pelo texto! Parabéns!!
    Ele, com sinceridade, nos exorta a “viver em função da melhora de si mesmo e da melhora da coletividade humana”. Eis o resultado da fuga das amarras tridimensionais.
    Será que há mesmo uma essência e/ou natureza humana? O que significa esta tese para a liberdade humana de se construir e evoluir?

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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