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Dedão Cósmico

Sentado em um aconchegante banquinho de madeira, de uma reluzente paisagem noturna, pude observar o caminhar silencioso e continuo de um grupo de formigas em um pedaço de grama do meu jardim.
Sem analogias, metafóricas e questionamentos filosóficos antológicos, pude perceber o quanto de simplicidade havia naquela conjuntura minúscula.
Minhas idéias a respeito do universo macro e micro me acompanham quase que por meio de uma simbiose crônica.
Não me importo com o quanto isso consome do meu processo de pensamento e formulação a respeito de tudo e de todos.
Mas ali, olhando para aquele universo particular das formigas, pude sentir uma pontada de insignificância. Não no mundo das formigas, que, aliás, o são, da mesma forma. Mas no universo conturbado da humanidade como um todo.
Como um Deus, fiquei observando este contexto aparentemente inócuo de uma parcela ínfima do universo.
O que estariam pensando estas formigas?
O que move tão organizada estrutura social?
Será que elas, no processo de busca das formigas, teriam as dúvidas, questionamentos e loucuras paralelas ao nosso pensamento racional?
Por que se assim o for, elas imaginam aquele pequeno pedaço de grama como um mundo próprio e único.
Como um planeta plano e bidimensional.
Com seus compêndios de filosofia e ciência, talvez elas racionalizem seu mundo minúsculo assim como nós fazemos com o nosso pedaço de grama redondo.
De repente isso me assustou.
De certo se seu mundo é parte tão insignificante do universo, assim também parece ser o nosso.
Quase que por um reflexo automatizado, olhei para o céu noturno de meu pedaço de grama, e curioso imaginei, se além daquilo que meus sentidos podiam captar, estava um ser gigante, a observar-me silenciosamente em minha insignificante existência. Isto me assustou novamente.
Mas a realidade parecia lógica demais para ser refutada.
Não somos a ponta da evolução.
Não somos o limiar e o topo de toda uma construção.
Não estamos no início, nem no meio nem no fim especificamente.
Somos uma parte que não cabe a mim julgar a posição hierárquica, ou evolutiva, ou de qualquer outra natureza.
Meu pedaço de grama é tão pequeno e ínfimo quanto o da formiga.
Minha racionalização não foge das possíveis inferências que o cientista formiga deve fazer a respeito de seu universo particular. Para ele está tudo pronto e acabado. Seu universo se resume ao que vê e sente.
Assim como para muitos de nós
Mas, e se formiga mais ousada, quem sabe um dia na loucura própria de criaturas além de seu tempo, resolvesse passear ou viajar por terrenos mais longínquos e distantes de seu mundo conhecido?
O que pensaria tal criatura se de repente encontrasse no meio de seu gramado um gigantesco dedão imponente de um mundo desconhecido?
Com certeza, no instinto de sobrevivência ela tascaria uma caprichada picada.
Mas, aí então, com desespero ou não teria encontrado uma peça estranha em seu mundo.
A matrix de seu mundo verde.
Uma falha contingencial na estrutura racionalizada de seu mundo.
Tudo então seria diferente a partir de então.
O mundo não seria mais o mesmo com aquele estranho dedão.
A ciência e a filosofia das formigas teria agora um fantástico e ao mesmo tempo complexo tema a ser discutidos em seu anais.
“Teoria Fundamental do Dedão Cósmico”...

Não pude deixar de imaginar o quanto de gigantescos e complexos temas racionais temos construído as mais variadas teorias matemáticas, físicas, filosóficas e religiosas.
Quantos estranhos dedões desconhecidos temos encontrado?
Quantas respostas obtemos por meio daquilo que conhecemos de nosso mundo material?
A quantas conclusões chegamos com o potencial limitado de nossos sentidos?

E no meio de uma estarrecida conclusão a cerca de minha posição no universo, percebi a grandeza de se observar a vida das formigas.
A maioria das pessoas fogem de seus dedões.
A maioria deixa de pensar na própria existência como parte inseparável de um infinito jardim cósmico com seus dedões grandes, pequenos, gordos, rechonchudos ou coloridos.
Quem sabe se deixarmos nossas tradicionais teorias racionalistas em detrimento de uma observação e de uma construção mais intuitiva e transcendental de nosso universo perceptível poderíamos compreender a natureza, o sentido e a significação mais profunda de nossos dedões cotidianos?
Quem sabe se a partir da simples observação de um pedaço de grama pudéssemos nos encontrar como criaturas e a partir dessa fantástica descoberta avançar rumo à compreensão plena e absoluta do provável dono deste inimaginável dedão cósmico no meio de nosso jardim limitado.

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