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Dualidade

Será que somos o que olhamos e vemos no espelho?
Ou o que somos não passa de uma subjetividade paralela daquilo que pensamos ser a criatura do reflexo?
Será que o objeto enxergado, visto e assimilado como reflexo, cansado e materialmente carregado de uma torrente de sensações e sentimentos duais é exatamente o que pensa o rosto daquele que com coragem ou por narcisismo se põe ao teste da auto-observação sincera?

Do reflexo, ao real, da sombra ao objeto, do palpável ao abstrato... a que conclusões chegamos ao desobedecer as condutas típicas do “normopata” estilizado.
Se somos medíocres nas nossas capacidades intuitivas de entender o reflexo, é por que nada sabemos a respeito do mundo real e de nós mesmos.
Digo mundo real, não apenas, aquele materialmente conhecido, e fisicamente catalogado pela nossa jocosa maquininha de identificar e dar nome às coisas que podemos tocar.
O verdadeiro e definitivo mundo real, é aquele que conseguimos conceber, individualmente, a partir de nosso conflito interno primordial: Nossa dualidade.
Nossa separatividade interna...
Nossa ambigüidade lingüística e filosófica...
Nossa desconcertante oscilação entre o "bem e o mal" de cada dia.
Dividimos mais que juntamos...
Quebramos mais que colamos...
E em metástases cíclicas é que descobrimos por meio de nossas antíteses o fundamental da vida, da terra, do fogo e da água.

Na esperança de equilíbrio procuramos sócios...
De amor, amantes...
De consolo... amigos
De dor, algozes...
De prazer, nossos pecados capitais...
E aceitamos, entre tantos e entre vários, aqueles que, mais diferente, nos parecem ser.
E aceitamos, e amamos, e choramos, e gritamos racionalizando até mesmo nossos sentimentos.
E em uma fúria incontrolável e poderosa...
Percebemos, no reflexo difuso...
Nossa dualidade...
Que não cala...
Não cessa...
Que em um minuto nos faz deus, pra no seguinte nos tornar demônio...
Que em um ato nos enche de alegria, pra no seguinte nos mostrar as sombras obscuras da nossa inconstância dual...
Somos, por que nascemos e fomos reforçados, torturados e amplificados em nossa capacidade de separar e dividir...
A terra, os sentimentos, as pessoas, as coisas...
Nossas coisas, internas...
Nossas angústias...
Separadas de nossa capacidade de regeneração.
Nosso ódio, distante e poderosamente longínquo de nossa capacidade de amar...
Nossa compaixão arrancada, pelo direito positivo e mecanicista, de nossa capacidade de julgar com perdão.
Somos duais, por não enxergamos na sombra e na escuridão uma centelha sequer de esperança para o reflexo no espelho.
E somos duais, por assumimos o lado da convenção... da conveniência e da apatia.
Do apego à quietude superficial e da hiper-valorização da confusão desnecessária.
Somos duais, por que não enxergamos a criatura no espelho como sendo parte e todo...
Como sendo tudo e apenas do tudo um pouquinho de qualquer nada.
Não enxergamos...
No místico, o selvagem (a não ser quando este nos rouba a liberdade).
Na rosa, o espinho (a não ser através da dor).
Na velhice, a juventude (a não ser quando chegamos lá).
No pecado a redenção (a não ser que aprendamos a perdoar)
E seremos ao longo de nossa superficialidade alienante forçados a aprender a juntar...
Até que nossa mente material se cale...
Até que nossas partes se falem...
Até que nosso espírito conturbado se ajoelhe...
E que por necessidade, vontade ou pressão...
Possamos enxergar no espelho...
O que sentimos na alma.

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