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Quem Somos Nós?

O filme, o livro e muitas outras formas de mídia, interativas ou não, bombardearam a opinião pública e ainda o fazem com o milagre da pergunta insólita: “Quem Somos Nós”.
A questão é caro leitor, que uma outra pergunta fulmina minha percepção, não com o mesmo poder explosivo e fantástico dessa que alavanca exorbitantes valores no cenário econômico em que marketing transforma água em vinho e ferro em ouro.

Quantos destes nós, também insólitos, conseguem responder a esta pergunta intrigante?.
Você poderia? Talvez sim, talvez não. Não sei ao certo.

A verdade, é que ela possui mérito. Por que de alguma forma iniciou em muitos de “nós” uma pequena e furtiva vontade de tentar entender mais do que aquilo que vemos, tocamos ou achamos ser parte de nossa realidade local.
Sim ela possui mérito, porque instiga, mexe e remexe no âmago de nossas consciências metalizadas, estilizadas e re-formuladas por milênios de interação superficial com anossa natureza interna.
“Quem somos nos” não é uma pergunta para qualquer um.
Também, e de qualquer forma, não é para muitos.
Talvez seja apenas para aqueles que com alguma coragem olharam além do espelho frio e superficial de nossas ambições e apegos.
Para os poucos, que criativos, inteligentes, descolados e inebriados pela mosca azul da curiosidade desbravaram suas consciências torpes.
Lutaram e degladiram com a normalidade de nossa existência.
Normalidade que limita-nos a apertadores de botão, desatarrachadores de parafuso.
Limita-nos ao labor mecânico, desumano e confuso.
Torna-nos, apesar de nossa equivocada superioridade, medíocres no elementar, fracos no substancial e poderosos no fútil.
Talvez, saber quem somos, antes de qualquer coisa signifique entender isso.
Respeitar isso e a partir de uma visão mais holística do nosso dia-a-dia, poder fazer essa pergunta, não apenas olhando no espelho, como muitos fazem (já é um começo), mas olhando para nossa escuridão, para o nosso lado negro e sombrio.
Olhando para nossas fraquezas, nosso egoísmo e nossa mesquinhez.
Talvez assim, percebamos o quão necessário seria fazer essa experiência, que a mídia, dando um tiro pela culatra, acabou por colocar em nossas vidas rubotizadas, adormecidas e superficializadas.
Não. Não há outra forma de se auto-conhecer.
Não há outra forma de responder sinceramente a uma pergunta que a milênios figura na imaginação humana.
Por que mais importante do que saber quem somos, será através de uma prática humanista, compreender a natureza humana.
E isso perpassa antes de tudo por uma avaliação de nossa prática diária. Dos detalhes que nos aborrecem, dos que nos deixam felizes, daqueles que magoam nossos entes e os fazem sofrer. Das sutilezas discretas que o destino, a vida e a evolução nos reserva.
Sem essa percepção.
Sem essa noção de existência em função do outro, de sua necessidade ou importância, não poderemos jamais dar o salto necessário para as outras perguntas, as outras respostas, e para as outras questões que nos permitirão entrar em sincronia, em um religare simbiótico e definitivo com a nossa centelha filosófica, absorvendo o conhecimento intuitivo, criativo e holístico que, perene nos rodeia como o ar que respiramos.

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