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Células-tronco: Evolução, demagogia, fundamentalismo ou barbárie.

Nada como começar uma idéia de mente aberta, coração firme e determinação consciente.
E isso significa falar de questões, dilemas e processos que envolvam a natureza humana.
Me refiro portanto, à decisão do STF quando da utilização de células-tronco para pesquisas.
Organizados estão em suas trincheiras, de um lado, os membros da Igreja Católica, dos espíritas e evangélicos e de outro, em contraposição, o governo na figura do ministro da saúde, Temporão e cientistas engajados na pesquisa.
De ambos os lados, juristas, cientistas e leigos trabalham num interminável conjunto de argumentos em defesa de suas respectivas percepções.
Não se trata de um julgamento equivocado como é o caso da tentativa de se votar a lei do aborto, que aliás, isso sim é um Aborto Jurídico defendido pelo mesmo ministro e que possui em sua rejeição pública uma negação que parte de princípios verdadeiramente lógicos e humanamente coerentes.
A lei a que me refiro, no entanto, trata de uma questão que possui consistência e veracidade de ambos os lados.
Atenderia uma pequena parcela de pessoas que sonham com o sucesso das pesquisas no ramo e, ao mesmo tempo, colocaria o Brasil no rol dos países, que a partir de uma ciência madura, conseguiu desenvolver um projeto científico norteado pela ética e pelo direito à vida (se considerarmos, é claro, a veracidade das premissas iniciais levantadas pelos que defendem a lei). Por outro lado, há de se considerar, da mesma forma contingente e absolutamente correta o direito de defesa daqueles que, contra o projeto, defendem o direito à vida quando discutem o momento crucial de seu inicio.
Seria, como realmente pensam estes, que o início da vida se dá a partir da concepção? Ou como pesam os outros, somente após a formação do cérebro?
Muitas divergências, muitas contradições, discussões, ataques e questionamentos que, como de praxe, acabam caindo no esquecimento e no estande do desconhecido da opinião pública, leiga e curiosa.
Não se trata, portanto, de discutir sobre vida e morte como a mídia costuma colocar dizendo-se imparcial.
Não há imparcialidade nesta colocação.
Há falta de conhecimento humano, falta de percepção e falta de informação verdadeira.
Sabemos que não é uma lei que passa a influenciar parcela significativa dos brasileiros, suas vidas e seu cotidiano, mas é uma lei que pode mudar, com o tempo e sucesso das pesquisas, a vida e o cotidiano de alguns... e nesse sentido, por si só, já possui mérito e relevância.
Mas o que há de errado, então?
Por que tanto barulho e confusão em torno de algo que parece tão simples?
O problema é que apenas parece simples.
Não o é, porque fere direitos constitucionais.
Mas, não o é, definitivamente por que vai de encontro a valores humanos, éticos e, de certa forma, religiosos defendidos por parcela significativa de brasileiros católicos apostólicos romanos.
Assim, diante de tanto alarde não se pode simplesmente impor uma lei que mexa com parcelas da sociedade sem estar ferindo seus direitos constitucionais.
Disso se infere, meu caro leitor, que o problema não está na lei ou em seu mais sincero objetivo.
O problema está em suas premissas.
Está naqueles pontos obscuros, tanto da política brasileira, quanto dos interesses diversos.
Está no fato de que normalmente não se discutia tais questões no Brasil.
Não se colocava à mesa a importância, o valor ou a ineficácia de proposta como a que se apresenta atualmente.
Não é a aprovação da lei ou sua não aprovação que vai deixar o Brasil melhor ou pior em sua essência, mas a forma como ela será aplicada e que deverá dizer até que ponto evoluímos como seres humanos dotados de inteligência, discernimento e consciência coletiva.
Essa maturidade, tanto constitucional, quanto humana, deve refletir nossa atual condição como sociedade e mostrar ao mundo se somos capazes de gerenciar essa nova realidade, fiscalizando, aprendendo, respeitando.
Utilizando inequivocamente as ferramentas que nos são dadas para em sã consciência e de forma absolutamente transparente dar condições de vida e sobrevida aos nossos irmãos.
Isso sim seria pensar em evolução.
Isso sim seria maturidade jurídica e social.
Isso sim seria direito à vida.
Sem demagogia, fundamentalismo ou barbárie.

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