quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Grande Irmão



Não consigo deixar de pensar no quanto mídias televisivas no estilo Big Brother influenciam e atraem  milhares de pessoas em torno de uma fantasia. 
É como se estas pessoas não tivessem vida própria. Dia após dia projetam seus sonhos, desejos , necessidades  e até mesmo suas paixões  em um punhado de atores disfarçados de gente comum.  
Cidades inteiras se rendem a uma parafernália de pacotes psicológicos, atentamente projetados para instigar a curiosidade e cada vez mais ampliar, por uma lado a ingenuidade do espectador e por outro ainda mais grave, implantar de  forma sistematizada o princípio fundamental da alienação.

Obviamente existem um punhado de argumentações voltadas para a defesa do programa que fatura quase meio bilhão a cada edição.  Não é preciso citar qualquer deles especificamente, pois juntos, funcionam como instrumentos de justificativa para uma vida voltada para a completa alienação cultural e psíquica.
Tentei entrar nessa seqüência argumentativa, isolando de certa forma o aspecto plástico do programa.
A arte envolvida na representação ou ao menos o conjunto das artes musicais, teatrais e até o aspecto lúdico dessa ilusão empacotada e importada, como tantas outras do “grande país amigo”.
O grande irmão paga a seu herói temporário cerca de 0,3% do que arrecada e se apresenta como um dos maiores nichos de arrecadação no setor. Com um investimento irrisório, sem geração de emprego significativo, fica provado que o objetivo, como não poderia ser diferente, é mesmo  financeiro.
Tudo bem, que a emissora responsável pelo programa vise a capitalização e maximização de seus lucros, afinal é uma empresa como qualquer outra.
O que não se pode admitir é que as pessoas deixem suas vidas se envolverem com a obtenção de lucros por uma empresa que não possui compromisso nenhum com o desenvolvimento do país. 
Uma empresa que se tornou um conglomerado obscuro de mídias pouco interativas que a décadas  se alimentam exatamente da alienação, da pobreza cultural e da falta de perspectiva do brasileiro.
Não bastassem as novelas e o “programão” das tardes de domingo, o grande irmão, bem ao estilo Caim e Abel, cria padrões, determina modismos, instiga o uso de álcool e outras drogas e cada vez mais amplia sua exploração publicitária em torno do sexo e do corpo exposto de homens e mulheres robotizados  por uma ilusão.
Não se trata de moralismo ou de inferência  moral em torno do que rola e do que não rola dentro da casa.
Trata-se de uma preocupação sincera a respeito do que rola e do que não rola do lado de fora do circo.
Os problemas  brasileiros já são conhecidos  apesar de não serem amplamente  expostos por meio de um poderoso plano de marketing. 
A infinidade de questões urgentes, que afligem exatamente as pessoas que assistem ao grande irmão,  estão se tornando um câncer ambicioso e promete comprometer o futuro de um país que poderia ir muito além do que servir de palco para carrossel fantástico. 
Werneck, Buarque de Holanda, Darcy , Freire e muitos outros já anteciparam as possibilidades e os pecados de um país rico,  que não investe essa riqueza na  formação de seus cidadãos em indivíduos autônomos, criativos e potencialmente capazes de decidir sobre seus desejos, ambições e perspectivas.
São histórias contadas por brasileiros que não acreditam no grande irmão. 
São histórias que o grande irmão não conta, não divulga e não apóia. São histórias sobre o sofrimento, a dor e a desigualdade. Histórias que não passam na emissora amiga do grande país amigo, compromissada com os objetivos e as ambições daqueles que querem manter suas posições  de poder  e  de manutenção de pessoas e idéias  no lixo de pacotes como o do Big Brother.
Precisamos sim de pacotes e programas  que criem e  insiram um BBB (Boas Bibliotecas Brasileiras) no dia-a-dia dos milhares de brasileiros que não  conhecem seu país, não possuem idéias próprias e muito menos reconhecem ou acreditam nas possibilidade da mudança de paradigma  e reformulação das políticas públicas  necessárias para desinfecção cultural  que a alienação provocou  na vida e no cotidiano  de uma povo que sofre sob o fardo de uma  inexorável     forma de poder  baseada no pão e circo.

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